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 Miami Vice      Color/Dub. Original

Assim como a Casablanca do filme de 1942 tem pouco a ver com a verdadeira cidade, a Miami de James Sonny Crockett (Don Johnson) e Ricardo Tubbs (Philip Michael Thomas), musa de Miami Vice, também nunca existiu. Tanto o filme de 1942 quanto a série da década de 80, construíram uma realidade própria, mais intensa com os anos.

Em Miami Vice, é freneticamente ritmada a perversa atmosfera herdeira de Scarface (1983) e progenitora do bem-sucedido game Grand Theft Auto (GTA): Vice City (2002, com o próprio Philip Michael Thomas emprestando sua voz ao personagem Lance Vance). A tensão que emana das ruas e das suas figuras torna o ar irrespirável. A diferença entre criminosos e policiais é tênue, todos blefam compulsivamente sob cores pastéis, náuticos prédios art déco e envolventes luzes exageradamente coloridas da vida noturna. Ninguém é mais forte que esse jogo e poucos escapam desse vício, o verdadeiro protagonista do seriado, como seu nome já sugere. Alguns dos diálogos mais importantes não são falados: estão no rock instrumental de Jan Hammer e Tim Truman, bem como nas letras das músicas que dialogam com a narrativa, de Hoagy Carmichael a U2, de Bob Marley a Peter Gabriel.

Nessa cidade deliciosamente perdida, os "MTV Cops" Crockett e Tubbs são intérpretes de uma farsa. Apesar de mal terem dinheiro para uma conta no banco, a fauna local os conhece como Burnett e Cooper, dois “negociantes” de lucros duvidosos, desfrutando de barcos à vela e de corrida, indo a festas em carros Ferrari, em trajes como Versaci, Cerruti, Uomo, Hugo Boss e usando relógios Ebel ou Rolex. Claro, nada verdadeiramente deles. Para reforçar a vida dupla, o escritório Gold Cost Shipping Co. é a fachada do departamento de polícia em que trabalham, e nem na lista telefônica seus verdadeiros sobrenomes aparecem.

Quando a série entra no ar, Crockett já está nesse mundo há dez anos, tendo passado antes pelo Vietnã. Sua vida pessoal não vai muito bem, ele vive um processo civilizado mas confuso de divórcio. Sonny e Caroline tentaram, mas a vida turbulenta do marido é para ela uma tortura, e para o filho do casal, Billy, não exatamente uma boa influência. Após rompimentos e reconciliações, no quarto episódio, "Calderone's Return", o divórcio é finalmente decidido. Sem volta.

Crockett é uma espécie de personagem arquetípico de Michael Mann ("O Informante", "Fogo Contra Fogo"), produtor executivo e homem-chave de Miami Vice. Em muitos de seus filmes, há personagens intensos cuja obsessão e envolvimento com o trabalho, com o qual mantêm uma relação doentia de jogador-jogo, sufoca suas vidas íntimas. Compare-se o personagem de Don Johnson em Miami Vice com os de Al Pacino em "Fogo Contra Fogo" e "O Informante" bem como com o de Robert DeNiro em "Fogo Contra Fogo": os de Pacino revelam uma reencarnação de Crockett, enquanto que o de DeNiro, uma de Burnett.

Tubbs, policial das ruas de Nova Iorque, vai a Miami para vingar a morte de seu irmão, procurando coincidentemente pelo mesmo traficante colombiano que Crockett investiga, Calderone. Junto a uma personalidade na maior parte do tempo tranqüila e desembaraçada, existe uma determinação irracionalmente inflexível que instantaneamente faz de qualquer um no caminho um estranho. E Tubbs sempre será assim, de bem com a vida até que resolva não deixar barato.

Trocando mais socos e provocações entre si que bom dia, o entrosamento inicial dos dois não poderia ser pior. Entretanto, num trabalho com risco de vida real e tensão insuportável, antes do fim da primeira missão eles já seriam quase amigos. Tubbs não poderia voltar a Nova Iorque pois estava mais que "sujo" por lá. Ficar em Miami seria uma saída natural e logo ele arrumaria um Cadillac Deville conversível azul metálico 1963, estabelecendo-se na bela cidade durante as cinco temporadas do seriado, de 1984 a 1989.

Foi decisiva tanto para a escolha de Don Johnson quanto de Philip Michael Thomas sua atuação em conjunto. A importância deles para a série só ficaria evidente nas seleções finais dos atores, quando acabariam tendo, talvez por sorte, que contracenar juntos.

No sexto episódio, "One Eyed Jack", surgiria o último personagem regular de Miami Vice, o tenente Martin Castillo (Edward James Olmos), substituto de Lou Rodriguez (Gregory Sierra), morto dois episódios antes. Edward James Olmos ("Blade Runner", "Stand and Deliver") havia sido insistentemente convidado para entrar no elenco por Michael Mann, mas somente após a excepcional concessão de direitos de participação criativa no personagem e de liberdade de envolvimento com outros projetos, ele aceitou o papel. Mann havia mais uma vez acertado: quem conhece Miami Vice sabe que Castillo é tão importante quanto a dupla principal, justamente pelo pálido contraponto que representa em relação a ela. O personagem nunca é revelado por completo e muito lentamente se torna claro o quanto suas capacidades de investigação, supervisão e eventual ação são inesgotáveis. Ex-agente da CIA que viveu infiltrado por anos na Ásia, com passado oficialmente inexistente nos registros confidenciais, ele é uma espécie de oposto do típico tira dos enlatados ou da tradição "Dirty Harry". Em apenas um momento nos 111 episódios de Miami Vice, vê-se Castillo perder o controle ("Golden Triangle - part II"); sua disciplina é plena e nele está ausente qualquer tipo de exaltação ou abuso de força, não importando a situação. Sua voz é débil e contida e sua mente parece não ter deixado o pensamento, os costumes e as habilidades orientais. Quando tem que sair em campo aberto, faz qualquer outro parecer um iniciante, mesmo a dupla principal. Sua roupa é praticamente um uniforme: quase nunca é visto usando outra coisa que não um simples terno escuro, camisa branca e uma gravata fina. Especificamente em alguns episódios da série ele teve enfoque aprofundado. Um deles, "Bushido" (com participação de Dean Stockwell, episódio 30), foi dirigido pelo próprio Olmos.

A equipe de "Vice" tem ainda quatro outros personagens: Stan Switek (Michael Talbott), Larry Zito (John Diehl), Gina Calabrese (Saundra Santiago) e Trudy Joplin (Olivia Brown). Como a série freqüentemente abrange não só as drogas mas também prostituição e tráfico de armas, em muitos episódios as belas Gina e Trudy passavam-se por prostitutas de rua ou escort-girls de luxo. Pelo menos em um momento, as conseqüências foram literais: no episódio 10 ("Give a Little, Take a Little"), Gina é obrigada a fazer programa com seu cafetão para que sua identidade não seja descoberta e sua própria vida posta em risco.

Switek e Zito são dois policiais um tanto imaturos que comumente passam por situações cômicas, aprimorando-se ao longo do seriado. Freqüentemente monitoram suspeitos e suas rotinas diárias através de telefones grampeados e outros aparatos, num furgão GMC. Seu enfoque cômico diminuiu na segunda temporada, e desapareceu na terceira. Nesta última, em "Down for the Count" (episódio 56), Zito é assassinado.

Claro, não se pode esquecer Elvis o jacaré (e não crocodilo, como Crockett sempre fez questão de enfatizar), ex-mascote da Universidade da Flórida que divide o barco a vela St. Vitus' Dance (um Endeavor 42) com seu dono.

Por se tratar de um departamento quase que inteiramente undercover e marcado por procedimentos pouco ortodoxos, freqüentes atritos com ramos maiores e mais poderosos da segurança dos EUA, isto é, CIA e FBI, eram experimentados pelos seus membros. São incontáveis os episódios em que os federais aparecem para atrapalhar tudo, ou por ineficiência ou por interesses prioritários do país. Alguns destes poderiam ser "vista-grossa" ao tráfico de armas para financiamento de guerrilhas estrangeiras (como no episódio "No Exit") e manutenção de atividades ilícitas em outros territórios ("Golden Triangle"). Tirando poucos diálogos forçosos, na maior parte do tempo a série não teve piedade ao tocar em pontos controvertidos das políticas externa e interna norte-americanas, chegando a ter a participação de um dos envolvidos no escândalo Watergate em dois episódios ("Back in the World" e "Stone's War"), o ex-agente do FBI G. Gordon Liddy.

Um clássico já na época

Uma característica notável do seriado era a freqüente participação de celebridades, intensificada a partir da segunda temporada. Nomes como Phil Collins, Bruce Willis, Miles Davis, Willie Nelson, James Brown, Lee Iacocca, Bianca Jagger, Little Richard, Roberto Duran, Frank Zappa, Don King, Danny Sullivan, Pam Grier e tantos outros, freqüentemente aparecem nos episódios, atuando como traficantes, prostitutas e policiais corruptos. Muitos atores hoje conhecidos também tiveram papéis, entre eles Julia Roberts, Benicio Del Toro, Ving Rhames, Wesley Snipes, Larry Fishburne, Annette Bening, Laura San Giacomo, Liam Neeson e John Leguizamo. Não importando o convidado, nenhum deles ganhava mais que 2500 dólares (mais despesas). Pouco ao se considerar o custo de cada episódio, aproximadamente 1,4 milhões de dólares ("Back in the World", episódio 32, chegou a 1,9 milhão), o dobro do habitual da época. Alguns dos convidados participariam de mais de uma forma, aparecendo não só como atores como também contribuindo com suas músicas, como Glenn Frey e Phil Collins. O ex-Eagle Frey e sua música "Smuggler's Blues" serviram de fonte para o episódio 15. Neste, Crockett e Tubbs vão à Colômbia com a ajuda de um piloto free lancer, interpretado por ele próprio. A relação foi quase invertida no episódio 23, "The Prodigal Son", em que o hit "You Belong to the City" marca a missão de Crockett e Tubbs em Nova Iorque e o envolvimento de Crockett com uma mulher que o espiona. Desta vez, entretanto, cenas desse episódio longo (premiere da segunda temporada) foram recicladas no próprio videoclip de Frey.

Esses dois episódios e "Calderone's Return - part II" foram dirigidos por Paul Michael Glaser, de Starsky & Hutch. Seu colega David Soul também foi diretor em Miami Vice, no episódio "No Exit". O próprio Don Johnson dirigiu quatro episódios e nos cinco anos de Miami Vice, adquiriu experiência suficiente para assumir Nash Bridges entre 1996 e 2001, série que teve 122 episódios e seis temporadas. Nela, Johnson não só foi o ator principal como também o produtor executivo. "Bridges" é basicamente Crockett após uma década, em outra cidade e em outro departamento, num jogo de personalidades explorado tão astutamente que em dois capítulos, Philip Michael Thomas faz uma participação como antigo amigo de Nash. O nome de um deles, claro, só poderia ser "Out of Miami". O personagem de Thomas, que também aparece em "Wild Card", é Cedrick Hawks, apelidado de Rick (lembrando Rico, como Tubbs era chamado). Alguns episódios de Nash Bridges até mesmo reaproveitaram títulos como "Payback" e "Rock and Hard Place". A manobra, relativamente bem-sucedida, era evidente: garantir a simpatia dos fãs de Miami Vice.

Estratégias à parte, o fato é que cada vez mais se tornou difícil diferenciar Don Johnson de Sonny Crockett. Quem assistia às lutas de Tyson na década de 80, freqüentemente via Johnson na platéia, às vezes trocando algumas palavras com Jack Nicholson, outras vezes com Stallone. Entretanto, Sonny Crockett é quem parecia estar lá: o notório processo do ator ser tomado pelo personagem e não conseguir (e talvez nem querer) se libertar. Crockett mostrou que sabia jogar snooker em "The Great McCarthy", e não foi necessário contratar ninguém, pois Johnson sabia muito bem como fazê-lo. Ele (ou melhor, Burnett) freqüentemente pilotava barcos de corrida em alta velocidade. Emerson Fittipaldi, numa entrevista dada à TV brasileira, contou que, sendo amigo de Don Johnson, havia sido convidado por ele para ser seu parceiro numa corrida de lanchas. Emerson recusou o convite por achar um esporte arriscado (!) e pouco após veio a saber que Johnson e seus co-pilotos haviam sido os vencedores...

Miami Vice deixou-se levar pela música, não apenas na inspiração dos roteiros, mas além, no seu próprio formato. A série deve tanto ao videoclip quanto este e o desenvolvimento de sua linguagem devem a ela. O freqüente cessar de diálogos e a afinidade com o discurso musical em detalhes quase subliminares (em muitas cenas os passos tensos de Crockett e Tubbs ou de outros personagens não apenas estavam discretamente sincronizados entre si como também em relação à batida) faziam com que a carga de sentidos fosse maior do que qualquer fala. Parte dessa arte relacionava-se não só à edição visual, cuja câmera lenta era uma marca, mas à da própria música, que raramente aparecia como nas gravações, um dos trabalhos mais sutis da produção. Muitas vezes um segmento secundário dos vocais era editado de forma a parecer o refrão. Outras, a ordem interna da música era simplesmente alterada. Uma forma similar de estabelecimento de relações sígnicas entre visão e audição, bases do videoclipe, pôde ser encontrada também em filmes de Kubrick, embora com repertório diferente.

Na própria abertura da série, sempre após um prólogo, a linguagem do videoclipe já se fazia notar, com os raios de sol passando pelas palmeiras, os flamingos, o mar e o famoso logotipo sendo coordenado pelo "The Original Miami Vice Theme", de Jan Hammer. 



 

Qualidade Excelente 

 

 

1º Temporada Completa

Disco 1
1. Miami Vice
2. Coração das Trevas

Disco 2
3. A Corrida
4. Lista de Sucessos ou A Volta de Calderone
5. A Volta de Calderone Parte 2

Disco 3
6. Jack Caolho
7. Sem Saída ou A Tartaruga de Três Olhos
8. O Grande McCarthy

Disco 4
9. Glades
10. Dê um Pouco, Tire um Pouco
11. Pequeno Príncipe

Disco 5
12. A Corrida do Leite
13. Triângulo Dourado
14. Triângulo Dourado Parte 2

Disco 6
15. A Canção do Contrabandista
16. Ritos de Passagem
17. Maze

Disco 7
18. Feitos um para o Outro
19. Invasores
20. Ninguém Vive para Sempre

Disco 8
21. Evan
22. Lombard

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